Costura exposta





Em memória de Rubem Fonseca, Aldir Blanc

Sérgio Sant´anna, Olga Savary


João Pedro Mattos Pinto

Miguel Otávio Santana da Silva

e George Floyd




Tecer e escrever reintegram o corpo à dinâmica do caos – responsável pela inauguração e destruição contínua das formas que seguramos nas mãos. A morte e vida dos territórios que emergem dessa movimentação nomeamos ou abandonamos ao silêncio originário que seja talvez morada das palavras e meadas de linhas que esperam do corpo apenas a postura de estar à espreita de uma composição.


Ganha contorno e ganha o mundo o nosso segundo cupinzeiro. Nesta edição, transamos leitura-escrita-conversa feito uma trama só, uma só colcha, com costura exposta. Uma só colcha, mas cheia de porosidades, quenturas e maneiras. Uma revista literária em tempos difíceis. Uma revista literária no rodopio da morte. Uma revista literária no galope da história. Guimarães Rosa no seu Ser-Tão talhou que “A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero”. Nosso cupim reivindica essa frase, essa intenção. Em um tempo tão duro para o nosso povo, os textos, as ilustrações e o todo que é o trabalho editorial que dá nó na revista é dedicado para lamber as feridas do presente e incentivar a fúria criativa com a qual vamos compor o futuro.


Precisa-se do corpo para dar forma – mas o comando de deriva é também deflagrado por ele. Viver é esse direito sonâmbulo de habitar e deixar também morrer a matéria. Nesses meses, em que a vida declina, retorna, se refaz – enovelada e torvelinha, a Cupim reuniu de modo intuitivo, como um bordado que se faz sem as mãos, textos que nos rememoram que a vida precisa ser possível, porque o desejo o é. Precisa ser possível porque é vida. Precisa ser possível porque sentamo-nos aqui e “o calor mexe com as pessoas”, e a forma e sua ausência produz um ritmo como num poema de Florbela Espanca – que ecoa o som além das paredes e faz dançar.


A vida precisa ser possível para continuar sendo poesia e performance de vida. Desenho, traço, intuição – seiva, veneno e fruto. A vida precisa ser possível para que seja escrita, cantada. Diante de nós, na subida pelas encostas de estatísticas, ouvem-se algumas palavras: “permanecer junto/ aprender as flores/ caminhar aceso”.


Nesta edição, seguramos esse fio suspenso entre o corpo e o que cria: nas mãos e na boca, a palavra é outra.



06/07/2020




Ilustração: Marco Marinho