Ricardo Aleixo, no que você está pensando?

Por Douglas Ferreira





(Quinta-feira, 17 de abril de 2020. 15:54h.)


Revista Cupim: Boa tarde, Ricardo. Tudo bem?

Já estou por aqui.


Ricardo Aleixo: Ei, Douglas, só vou atender uma ligação e já te dou um sinal, tá bom?


RC: Beleza.

(16:20h)

RA: Oi, Douglas, a conversa demorou um pouco mais, mas eu já tô disponível, tá?

Conta só dois minutos, dois minutos, no caso, 120 segundos.


RC: Tudo bem, Ricardo haha

Tô sem pressa

(16:22h)

RA: Tô pronto


RC: Se quiser responder por áudio, fique à vontade. Depois só vou precisar transcrever, se não se importar.


RA: Bora por áudio


RC: Então, esta entrevista gira em torno de uma única curiosidade:

No que você está pensando?


RA: Eu estou pensando agora no que eu penso sempre, praticamente todos os dias da semana, dos anos, desde o tempo em que eu passei, ainda no final da adolescência, a entender a poesia como um campo de conhecimento que eu gostaria de vivenciar. Eu penso na incompatibilidade entre poesia e capitalismo. O quanto, pra poesia poder existir, é preciso reforçar o sentido de destruição do capitalismo e de suas linhas auxiliares. No sentido de que poesia é a negação do capital. É nisso que eu estou pensando agora.

RC: E como a poesia tem assumido esse potencial de negação do capitalismo dentro do cenário da literatura brasileira hoje? Ela tem assumido?

RA: Eu não sei se eu tenho condições de responder tão objetivamente a essa pergunta, mas eu posso tentar algumas aproximações, eu posso tentar algumas hipóteses. E a hipótese mais terrível, e por isso eu prefiro destacá-la, é de que esse não tem sido um assunto recorrente na forma como poetas, no Brasil, os e as poetas, têm se posicionado. Me parece que ainda existe um desejo muito grande, incontido mesmo, de pertencimento ao sistema literário no que esse tem de mais pernicioso, que é esse brilhareco fornecido pela presença massiva nos cadernos de cultura e de literatura, nos prêmios – ganhar prêmio é um negócio ainda muito fascinante pra maioria. Isso é o sistema literário. Ele se organiza dessa forma e se baseia na exploração do desejo de quem faz poesia, de quem faz literatura, de pertencer, mesmo que pra isso seja necessário vender a alma.


Então acho que está tudo como estava há dez anos, há vinte anos, há trinta anos, há quarenta anos, há cinquenta anos... O capitalismo nem aí pra poesia, e a poesia muito desejosa, os poetas e as poetas muito desejosos, desejosas, de fazerem parte de alguma coisa que imaginam ser superior à vida cotidiana, com todos os seus embaraços, todas as possibilidades de humilhação... É como se fazer sucesso viesse a representar a superação de tudo que está posto. E o sucesso é uma besteira. O que é sucesso em poesia? Talvez sucesso em poesia seja poder ser lido. Mas lido por quem, também? Lido num presídio? Lido no sertão de Pernambuco? Ou o sucesso é só ser lido na Academia Brasileira de Letras, dentro das universidades mais prestigiosas do país? É uma discussão, na verdade, inexistente, ninguém tá parando pra pensar nisso não, só eu que penso essas coisas (risos).


Se tiver mundo ainda, é certo que a velha e boa arte da poesia vai estar lá. Agora, quem serão os poetas desse mundo por vir?

RC: hahaha

É

E é curioso, porque esse mundo ao qual todos querem pertencer parece estar, de certo modo, se esfacelando agora. E os poetas continuam querendo pertencer a ele, mesmo em pedaços? Como você vê a atuação de poetas e outros artistas nesse mundo pandêmico?

RA: Eu acho que quem é poeta e artista mesmo, e não sou eu que vou dizer quem é que é poeta e artista mesmo, tá fazendo o seu trabalho do mesmo modo, entendendo aqui que trabalho é palavra empregada não na acepção do mundo capitalista, do mundo organizado, mas na acepção que, conforme aprendi com meu amigo Paulo Nazareth, remete à experiência afro-indígena: trabalho como feitiço, como ebó, como oferenda, como fetiche, como alguma coisa que funciona como disparador de energias outras. Nesse sentido eu tô vendo tudo muito bem posto. O xamã, que é um poeta, o griô, que é um poeta, continuam atuando para destruir o mundo velho e pra criar as condições pra possíveis mundos novos. Muita gente no contexto urbano, ligada à poesia – que significa pra mim, ao mesmo tempo, como eu tenho dito, um recorte do pensamento e a possível respiração –, muita gente continua a fazer isso e vai continuar, se sobrar mundo, se tiver mundo depois da pandemia, depois desse mundo pandêmico, como você diz, isso pra mim é muito seguro, muito certo. Se tiver mundo ainda, é certo que a velha e boa arte da poesia vai estar lá.


Agora, quem serão os poetas desse mundo por vir? Serão as pessoas que terão aceitado viver o pior e o melhor do mundo agora e dos mundos de antes de agora com a inteireza, com senso de inteireza, com senso de pertença real e profunda ao que quer que signifique a palavra mundo. Poesia não é só a cabecinha, não tem jeito de por só a cabecinha com relação à poesia, é corpo inteiro, não tem como tirar o corpo fora. Acho que essas pessoas estão não apenas preparando um possível novo mundo, como já estão lá nele. Agora, é a minoria, né? Como sempre é a minoria que se ocupa disso, a maioria tá interessada só nos prêmios, só na ideia vulgar de sucesso. E não há muito o que fazer quanto a isso.

RC: Você falou de corpo, que é reconhecidamente uma das forças da sua poesia. Como seu corpo tem se comportado, agora que está isolado do mundo? Que falta faz para o seu corpo a presença, o encontro?

RA: Ah, meu corpo tem se comportado muito bem. Eu vivo em estado de reclusão, né? Já há muito tempo. Uma reclusão entrecortada pela presença de pessoas amadas em alguns momentos da vida. E como o corpo é matéria de criação pra mim, é tema, é suporte, é forma e conteúdo do que eu faço, eu só preciso cuidar de mantê-lo vivo, atento, aberto a todas as boas hipóteses que o mundo coloca pra mim. Eu penso muito com o corpo, resolvo muitas coisas com o corpo. Em termos práticos, eu passo os dias cuidando das tarefas da casa, é uma casa grande, então é muito bom organizar a faxina da casa, lavar a louça, lavar banheiro, lavar a roupa, porque aí me dá contato com a água, e também dançar, tomar banho, essas coisas que não implicam em pensamento. Isso é muito bom pra criação. Eu devo dizer que, tirando a falta de contato direto com o público, eu estou num momento feliz. Mas sei que tudo isso vai passar e que logo volto a encontrar as pessoas, volto a encontrar o corpo das pessoas, a temperatura alterada pela presença minha e das demais pessoas. Tenho o melhor dos pensamentos sobre o que vem por aí, se conseguirmos a proeza, não como dizem muitos, de “vencer o coronavírus” – vencer o coronavírus é vencer a nós mesmos, como disse meu irmão Ailton Krenak –, mas de vencermos a ideia de vitória sobre o que quer que seja. Um mundo novo vai surgir, e se eu tiver a honra e a alegria de fazer parte dele, eu vou estar o mais plenamente possível, com alma, coração, espírito, inteligência e corpo livres pra me encontrar com as pessoas, porque essa é a razão da vida: encontrar as pessoas.

RC: Também espero que você esteja inteiro neste mundo novo, viu, Ricardo.

Quero estar lá pra ver.

RA:

RC: Olha, você disse que está pensando, que seu corpo está pensando, e seu poema? No que ele tem pensado agora? Existe alguma diferença entre o que você pensa e o que o seu poema pensa?

RA: Neste exato momento, Douglas, eu estou pensando que acabou o vinho que eu estava tomando e que preciso, daqui a sei lá quanto tempo, preparar o almoço. Eu mudei radicalmente os horários de comer, e foi muito bom fazer isso. Então, poder comer na hora em que eu sinto fome me mobiliza outro tipo de energia, diferente daquela energia que eu estava acostumado a vivenciar e a dispender no tipo de cotidiano que nós tínhamos até semanas atrás. E isso abre janelas, abre portas, canais de percepção múltiplos. Tudo isso é muito rico, tanto o vinho, que diz respeito ao gostar de algo, quanto a comida, que é preciso preparar, e preparar para mim só. Então são duas ordens diferentes, distintas: uma, a do desejo, tomar vinho; a outra, a da necessidade, a comida de todo dia. E como não aviltar nem comida e nem eu mesmo, fazendo com que ela seja uma experiência prazerosa e enriquecedora, e não só parte de uma rotina? É nisso que o meu corpo está pensando agora.

RC: Acho que você fez um poema

hahahaha


RA: Hahahaha


RC: Ricardo, então acho que vou te deixar almoçar

E comprar vinho

Porque se tem uma coisa que este mundo está nos ensinando é escolher bem as nossas prioridades

RA: Mas ó, querido, eu falei o que falei não pra terminar a conversa. Se você tiver que fazer mais perguntas, fique à vontade, eu só tô te dando a real da história, tá? (risos)

A gente deixou isso de lado, sem deixar de pensar que, no Brasil, não somos ensinados a pensar nas nossas prioridades, nós somos ensinados a fazer o jogo do rebanho, a gente não pensa no que a gente deseja de fato. A gente estuda coisas que querem que a gente estude, a gente transa com as pessoas que querem que a gente transe, a gente casa com as pessoas que querem que a gente case, a gente vota nos políticos que querem que a gente vote... Mas eu tenho dúvida de que o mundo está ensinando isso. Acho que muita gente, a maior parte, vai continuar a repetir os velhos programas. Eu acho isso mesmo.

RC: É vero, cada um aprende o que consegue e deseja também

Mas eu só queria te fazer uma última pergunta, de qualquer modo, embora a conversa esteja ótima

O que você tem a dizer a estes queridos dias difíceis, além de acho que já deu – embora// eu considere prematuro/ um definitivo adeus?

RA: É, eu tenho um reparo a fazer, no sentido de que os dias difíceis a que eu me referia eram dias difíceis para mim. Então eu podia ainda, com um tanto de arrogância e até de soberba, dizer que eles estavam livres pra voltar, se fosse o caso. Eu não diria, diante de uma perspectiva tão aterrorizante quanto a de hoje, que eu gostaria que voltassem dias como os que a gente tá vivendo agora, porque no plano individual eu tô bem, eu tenho minhas macumbinhas pra organizar o cotidiano, organizar a mente, a alma, o coração, o corpo todo, e ficar bem tanto quanto possível, mas estamos falando de um contexto mundial, planetário. São dias difíceis que eu espero que não voltem, embora eu tenha informações suficientes, e você tem, e um número crescente de pessoas tem também, pra saber que passaremos a conviver, de agora em diante, com muito mais situações como a que estamos vivendo. Então já não dá pra dizer que esses dias podem voltar, embora também a gente não possa se dizer preparada pra enfrentar novas situações. Não estamos preparados, não sabemos o que vem por aí. Mas tudo que diz respeito à volta, como Hélio Oiticica lembrou, tem a ver com o mundo judaico-cristão, com sua ideia de culpa, e eu não quero ter a ver com isso. Eu espero que nada volte, nem aquilo que já foi aparentemente bom, alegre, gozoso eu quero que volte. Eu quero coisas novas, de preferência boas e passíveis de redesenho contínuo pelo que são as nossas vidas, que as nossas vidas saibam desenhar futuros. É isso.

RC: É isso ❤

Querido, muuuito obrigado

Não queria te tomar mais que esta horinha, porque sei que precisamos cuidar mesmo é das nossas macumbinhas

(17:15h)

RA: Curtiu? ;)


RC: Ó, curti demais


RA: (risos) Tá certo! Foi muito bom falar contigo, e vamos seguindo, sucesso pra Revista! Agradeço muito a honra que me deram de ser o primeiro entrevistado.


RC: Ó, obrigado, querido ❤ A honra foi toda nossa. Ogum tem que vir primeiro.

Bom almoço.



(Entrevista conduzida pelo Whatsapp)

Ricardo Aleixo (1960) é poeta e mora em Belo Horizonte (MG). Recentemente, publicou Pesado demais para a ventania (Todavia, 2018) e Antiboi (Crisálida, 2017).



Ilustração: Marco Marinho e Fernanda Maia/ Foto: Rafael Motta