O espaço entre mim, eu e ti

Por Pedro Pianetti





A poesia é o lugar onde a marcha invisível das dinâmicas existenciais transforma-se em dança. Movimento absoluto, deliberado, multidirecional. É o lugar onde, pelo ofício da forma, o processamento da consciência se funde à possibilidade sentimental da lira. A poesia, assim, oferece ao eu nela projetado, ego transmutado em mancha gráfica sobre o vazio da folha, a possibilidade da pergunta sobre si. E é no desenrolar dessa mesma mancha gráfica que surgem as respostas a essa pergunta, descortinando novas perguntas e retesando conhecidas tensões, na “coreografia” existencial dos signos: a palavra, matéria imersa em som e ritmo, manifesta, por intermédio do gesto consciente da criação, o significado em potência.


E assim Florbela Espanca coreografa os signos, em um soneto:



Eu


Até agora eu não me conhecia,

julgava que era Eu e eu não era

Aquela que em meus versos descrevera

Tão clara como a fonte e como o dia.


Mas que eu não era Eu não o sabia

mesmo que o soubesse, o não dissera...

Olhos fitos em rútila quimera

Andava atrás de mim... e não me via!


Andava a procurar-me – pobre louca! –

E achei o meu olhar no teu olhar,

E a minha boca sobre a tua boca!


E esta ânsia de viver, que nada acalma,

E a chama da tua alma a esbrasear

As apagadas cinzas da minha alma!



Parece propício interpretar esses versos diante de uma “situação-limite”, como a que hoje vivemos no mundo. Enclausurados com nós mesmos, isolados dos “tus” em que nos completamos, nos chega mais vívida a reflexão da poeta. E a relativa clausura da forma (como essa em que nos contemos agora – nossos quartos, nossas gavetas) é o elemento primeiro que observaremos no poema.


Os catorze decassílabos heróicos, com rimas no esquema ABBA ABBA CDC EDE, parecem encerrar a forma ideal para o íntimo silogismo do eu lírico de Espanca. O soneto, desde sua gênese e desenvolvimento histórico, constitui-se como modelo de expressão existencial: a busca por uma essência do amor, do eu, da vida, da natureza se reinventa a cada geração de poetas. De Petrarca a Espanca, de Camões a Vinícius, no entanto, parece haver um elo no que tange a beleza lógica infiltrada entre quartetos e tercetos harmoniosamente dispostos no papel.


No soneto em questão, temos um tensionamento que se espraia de modo distinto nos quartetos e nos tercetos. Nestes, a vital angústia do encontro com o outro; naqueles, a revelação transformadora do encontro consigo. A abordagem se faz, então, através do paradoxo, especialmente marcado pela cesura na sexta sílaba de alguns versos (“[...] Julgava que era Eu – e eu não era/ [...] Andava atrás de mim... – e não me via!/ [...] E achei o meu olhar – no teu olhar/ E a minha boca so – bre a tua boca [...]”). Desse modo, Florbela constrói, em dois “atos” (o dos quartetos e o dos tercetos), os confrontos existenciais de seu poema.


No primeiro ato, o encontro do “Eu” com o “eu”, cuja oposição é graficamente marcada pelo uso de maiúsculas e minúsculas, revela o desencanto, a metamorfose, a quebra do arquétipo. Isso é tecido numa interessante rede de temporalidades, em que a consciência do presente se posiciona como ruptura da imagem do passado. Tal cisão é operada desde o primeiro verso, que demarca o “agora” como momento a partir do qual o eu recupera a noção de si. Essa percepção é reiterada na opção pelos pretéritos: o imperfeito ("era", "sabia", "andava", "via") revela um estado contínuo no passado, mas terminado. O mais-que-perfeito (“dissera”, “descrevera”), uma ação concluída – a ilusão com o Eu – antes de outra ação também passada – a tomada de consciência sobre tal ilusão. É interessante, ainda, mencionar a escolha lexical para a figuração do “Eu”. Esse alter-ego ideal, “claro como a fonte e como dia”, associa-se a uma ideia luminosa, à “rútila quimera”, à claridade ofuscante de uma falsa projeção.


No segundo ato, os seis versos finais, nos é exposta a origem da (auto)descoberta do eu lírico do poema. O eu se realiza no encontro, na alteridade, na presença exteriorizada em outro. Um “tu”, novo referente nos versos, redireciona o movimento existencial à esfera amorosa. O amálgama de olhares e bocas enunciado no primeiro terceto não soluciona, contudo, a consternação do eu poético. Esse amálgama é incompleto, paradoxal. O eu que não é eu sem o outro relativiza sua integridade, fragmenta-se, descreve um trajeto complexo onde se choca com a fronteira, simultaneamente diáfana e tangível, entre dois sujeitos. Em seu trajeto, que vai se desfechando nos versos finais, o eu lírico de Espanca encontra “esta ânsia de viver”, uma ânsia que é desejo e angústia: desejo na brasa do tu, angústia nas cinzas do eu. Retomando o campo lexical dos quartetos, “as apagadas cinzas” da alma que enuncia encobrem a rutilância e a luminosidade do Eu que deixou de existir. Agora, o calor, o fogo vital, emanam da alma descoberta do outro. E assim o “ato” se encerra, quase tragicamente, com a união ambígua dos corpos e identidades, prenúncio da indeslindável dependência amorosa e existencial entre eles.


Onde está a nossa ânsia de viver? Como encontrar-nos e encontrar o outro na dinâmica antinatural, mas vital do isolamento? Em tempos como o agora, de ausência à flor da pele, ressignificar o eu e o tu é tarefa quase diária. Para torná-la, então, mais suportável, que possamos visitar o lugar que mencionava no início deste texto. O lugar da poesia, onde mora o delicioso (e agridoce) sabor de lê-la, interpretá-la e dançar com ela; e assim ler-se, interpretar-se e dançar consigo mesmo entre as paredes da existência.




Pedro Pianetti é belorizontino, nascido na virada do milênio. Leitor assíduo e escritor eventual de poesia, estuda Letras na UFMG para se tornar professor. Na universidade, está em contato com espaços de reflexão sobre literatura, como o Centro de Estudos Portugueses. Tem especial interesse no estudo de poéticas modernas e contemporâneas. 



Ilustração: Vinícius Ribeiro