Lugar de falo

Por Ana Tavares Toledo





acabei de te ver passando por aqui, bem apressada e belíssima, vestida de vermelho, parecia um filme do almodóvar, o café de van gogh. te achei por um amigo em comum; me passa seu número? nunca falei tanto online com uma pessoa assim; tô impressionado com nossa sintonia; tô ansioso pra te ver. vamos pra um bar hoje? seu beijo é exatamente como imaginei, como se já tivesse te beijado. nosso encontro me faz acreditar até em vidas passadas. desculpa, linda, acabei empolgando e deixei uma marca no seu ombro; juro que não vai se repetir; seu cheiro me enlouquece, então acabei querendo te mastigar. amor, a gente tinha combinado de conversar antes de acontecer; você me magoou, mas vamos seguir juntos descobrindo de fato agora esse caminho e ficaremos bem. seu marido é maravilhoso, amiga; ele também parece ser massa mesmo, amiga. é um sujeito ótimo, muito educado, polido; escritor importante debruçado sobre a temática do combate ao machismo; um aliado e tanto do movimento feminista; homem raro e necessário. tudo bem, amor, vamos dar esse passo libertador às nossas individualidades; eu amo você e quero que seja feliz sempre. amor só dura em liberdade. claro, eu entendo, é necessário mesmo nos conhecermos com honestidade, admiro muito isso em você e por isso te afirmo que pode ficar tranquila, minha mulher e eu temos um relacionamento aberto também, mantemos essa casa aqui justamente pra garantir essa nossa privacidade. somos livres de padrões. a sociedade é muito engessada e limita nossos desejos mais importantes; falo constantemente da opressão sexual hipócrita que há quanto às mulheres livres, como você. que massa que ele é como você e seu marido, amiga! vem pra casa comigo hoje? adoro esse sexo suspenso. me fala uma poesia; você tem uma beleza lírica que completa os espaços com versos cantáveis, desde o amanhecer até a madrugada. fica só mais uma noite, vai? essa bunda, essas pernas, me deixam comovido como o diabo. você é muito evoluída, amiga! eu não daria conta de não monogamia. é vale dia e noite, é vale noite e dia, vale no carnaval, vale no são joão. passaram o evento todo juntos, vocês são amigos?! muito próximos, hein?! também custo a me interessar pelas pessoas, coisa linda; geralmente, elas me enchem de tédio, mas você é encantadora; gosto de tudo o que faz, do que escreve, da forma como fala com tanta segurança e versada. estou com ciúmes, amor, fica comigo hoje? reestruturar relação leva tempo mesmo, e investimento de amor, e paciência, mas tudo fica mais fácil depois; na verdade, tudo fica até ridículo. divorciamos e, como tô mal, não consigo te ver. será que tem a ver com você, amiga? será que era aberto mesmo o casamento dele? não tem nada a ver com você, só desgaste do tempo, conflitos. não sei mais quem sou eu; não consigo pensar. ele tem os problemas dele, mas parece te respeitar e estar evoluindo na análise. me ajuda hoje? não tô pensando direito; voltei a beber muito; preciso que vá embora. como estão suas férias?; seu marido vai com você? vou sumir umas semanas e você não repara, só preciso me organizar. feliz natal; vou dormir cedo, natal sozinho não tem a menor graça. ano novo vou passar sozinho na banheira e dormir cedo, tô sem clima sem você aqui. vem conhecer minha casa, em breve!; cê nunca entrou numa banheira?!; então precisa vir aqui! feliz ano novo, meu amor, e que sejamos ainda mais fortes em nossas liberdades! quer dizer amor... estrada de fazer o sonho acontecer. nossa, amiga, esse cara é rico?; não é ele que vive falando em igualdade social?; com esse tanto de casas, carros, até banheira tem, sei não. passei o ano novo com uma amiga; foi de última hora, não tinha combinado. quando cê voltar de viagem, a gente marca. quando eu organizar minha agenda, a gente marca. quando eu acertar os detalhes familiares, a gente marca. não posso neste fim de semana porque vou tá trabalhando. não posso neste fim de semana porque tô muito mal. não posso durante a semana porque não consigo dirigir. será que ele não tá mais interessado e não sabe como te falar, amiga? imagina!: eu quero muito ficar com você, só preciso de tempo pra me organizar; a gente combina d’ocê vir cá depois do carnaval; cê é uma coisa linda!; seu carinho tem feito diferença na minha vida. quero te ver; tenho saudades. gente certa é gente aberta; se o amor chamar, eu vou. que bom que deu certo entre vocês; se tá todo mundo feliz na história, é o que importa, amiga. sonhei e acordei pensando em você, como se estivesse chegando aqui; cheguei a sentir seu perfume. uai, mas vai ver ele tá num momento difícil e não consegue se organizar pra te ver agora, à distância complica mesmo. não tô conseguindo fazer minhas coisas. não consigo te mandar mensagem. não consigo pensar. não tô bem. tô piorando. preciso de um tempo. minha ex-mulher tá dificultando as coisas, mesmo eu aceitando tudo. não tô sabendo nem ler mais. não sei quem eu sou. o tratamento não tá adiantando. não, não precisa vir. tô mal. tô mal. tô muito mal. cê conhece alguém ao redor dele?; porque dez dias sem comunicação nenhuma é estranho mesmo; tava tudo bem entre vocês, amiga?; lembro que cê me falou que ele tava super mal; será que tá vivo? uma pergunta, em hora, às vezes, clarêia razão de paz. não, ele não tá morto nem internado: tá viajando com a mulher atual; ele e eu nunca tivemos um casamento aberto e não é porque você tem que pode achar que todo mundo tem; você foi machista, precisa melhorar sua bibliografia sobre feminismo; e, se ele não te quer mais, você deveria ir se tratar, e não vir falar comigo tentando atingir ele através de mim; eu não quero saber. o que você quer?; por que foi falar com minha ex-mulher?; ela não precisava disso!; sempre cuidei pra que ela não soubesse. eu sou solteiro e não devo satisfação pra ninguém!; se eu quiser sumir dez dias, vinte, a vida toda, eu sumo. nós nunca tivemos nada. você tá louca, querida! não fala com minha ex-mulher de novo. não fala com minha mulher atual. não fala! problema seu, eu tenho os meus problemas. o que você sente não importa; o que importa é o que eu estou perdendo com o que você fez. todos os lados possuem uma verdade indesmentível. nada a fazer. presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa, para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. para continuar. mas, então, pelo que consigo perceber, ele agiu sem o seu consentimento desde o início, encenando uma realidade a partir das suas regras previamente expostas a ele pra te manipular e usufruir de você. amiga, que absurdo! então com quem cê esteve todos esses meses, amiga?! deixa de ser dramática!; você está exagerando!; para de se fazer de vítima! tive um comportamento normal de homem padrão apenas; eu ainda tenho meus deslizes, não sou uma máquina. você ficou comigo porque quis e gostou, que eu sei! você, então, deveria falar com ele, já que essa situação ainda te traz tantas perguntas e esse nível de incômodo; talvez propor dialogar pessoalmente seja um bom desfecho para que você consiga enxergar o sujeito que ele é, e não o que foi construído. o que você quis dizer com aquela mensagem? te bloqueei porque você estava agressiva, devia ter mais educação ao falar comigo. fala logo! não vou te encontrar, não acho saudável. não tenho que te dar satisfação, já disse. realmente, nós tivemos algo e não temos mais, então não quero saber, o que me interessa não será discutido num divã. eu sempre soube, amiga, ele nunca me enganou. mas você foi muito inocente. as pessoas são más, querida, você precisa ficar mais esperta. você não deveria ter se metido no meio do casal; claro que daria ruim. sinto muito, amiga, mas não há nada a ser feito. eu não denunciaria porque você é casada, e um processo assim iria infernizar sua vida, além de te culpar. eu não falaria mais com ele. bloqueia. exclui. esquece. esquece isso, amiga. deixa pra lá. não fala nada. não foi grande coisa. por que você se colocou nessa posição de mulherzinha? você nunca desconfiou? às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. se ele sumiu, melhor assim; é bom que esquece mais rápido. homem é assim mesmo, não consegue lidar com conflito, desaparece. nenhum homem presta! olhei seu perfil porque já passaram uns meses e eu achei que não tinha problema; sempre adorei tudo o que você escreve e senti falta de ler. mas você também me machucou, me expôs de uma forma muito desnecessária; é tão culpada quanto eu!; você envolveu até minha atual mulher, porque tive que contar pra ela, já que não consegui disfarçar a tristeza com tudo o que me causou! o que você quer?; que eu implore seu perdão?! não posso te responder. não posso falar com você. não posso. não, nada disso, não precisa ser radical, podemos nos comunicar; não precisa se despedir de mim, eu quero falar com você, só não consigo agora; sempre afirmei que o diálogo é a melhor solução. não tenho tempo. estou vivendo um relacionamento realmente aberto e empenhado em fazer dar certo, então o início me demanda atenção integral; ela é minha prioridade agora, entende? o problema é que você é muito ansiosa, e eu não tenho pressa pra nada. não consigo hoje, estou numa situação delicada. não tem problema eu falar com você. não, não quero que haja mágoa entre nós, é totalmente desnecessário. acho importante nos falarmos mesmo. eu sei o que fiz e realmente te devo uma conversa, até pra te mostrar como estou refletindo e evoluindo. vamos marcar. eu não sei; não tenho um dia. os canais de comunicação comigo estão sempre abertos pra você, mas não sei se consigo te responder. fico lendo o que me escreve, mas, quando tento te responder, me perco no que penso e acabo não conseguindo elaborar uma resposta com o cuidado e a atenção que você merece. pode falar o que quiser comigo. então você propôs falarem em videochamada e ele nunca mais te respondeu? e o que isso significa para você? viver é negócio muito perigoso... esquece isso, amiga. o tempo cura. de tanto não vir, joão pregou-me nesta paisagem. shhh.




Ana Tavares Toledo é leitora desde os 4 anos de idade e, recentemente, escrevedora de crônicas, poesias, contos, artigos, cartas e bilhetes na newsletter ana crônicas (à qual se pode ter acesso através do link: tinyletter.com/anatravessia). Bacharel em Letras, desde 2011, revisa textos literários e faz companhia na caminhada da produção autoral alheia. Atravessa um mestrado em Literaturas de Língua Portuguesa, na PUC Minas, no qual estuda a literatura rosiana aliada à sociologia da moda, outra área na qual atua desde que nasceu, servindo de modelo de prova para sua própria mãe, que é professora estadual e caseira costureira. A autora sonha em lecionar literatura e moda, o que comprova que é mesmo filha de peixe e peixinha é.



Ilustração: Cindy Meira