Calunga

por Brenda K. Souza





Sou filha de antônia, que é filha de cléria e semião,

meus avós. do pai não ouso dizer o nome pra que não me caiam dos dedos as angústias. dona de muita herança não reclamada, tenho os pés e altura desengonçada de meu avô, minha memória terna. sei que me deixou outros agrados, regalias que desconheço olhos chorões e infantis, cabelos ralos o modo catiço de segurar cigarro. meu avô, eu sinto, partiu e deixou-me um caboclo que se aproxima de meu corpo tão logo o lembrar me distancie. em sonho ele me canta aí vem Nhô Zé, vem Nhô Zé Ê boi! minha avó que um dia há de esquecer o próprio nome e também o nosso me faz louvar sempre que pode à santíssima trindade. há contínuo uma prece

em nossa casa – não deixar que a fome alcance; fazer do desejo uma força, capaz de vingar a vida mesmo mirrada em nascença; saber que sem folhas nada se faz - e muito se erra. eu de cá, rezo constante essa ladainha pai, filho, espírito santo desfiamos o terço muito pegada com jesuzinho menino comida só vem depois de muita ave maria e quando escurece numa cama só dormimos todos juntos e medo não alcança mais.



Brenda K. Souza é nascida em Pirapora (MG), cidade em que ainda passa um rio. Tem por bens: o ano de nascimento (1992), uma gata, uma mesa de trabalho grande e plantas para cuidar. Tudo muito transitório. É graduada em Letras e mestra em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). E cuida de, na escrita, não deixar que nada escape ao(s) corpo(s) que tem.



Ilustração: Fernanda Maia