Amavisse

Bárbara Nacif





Um torso a cobrir-me substituiu uma vez o céu.


Pude tudo reclamar.

E tudo me teve parentesco. Inclusive um corpo,

que acontecia, em uma manhã, sonolento e morno,

estar de lábios abertos.

As flores não se beijam por abelhas?

Pois suspeito nos beijarmos por almas

mais largas que as nossas próprias.

Suspeito duas ramagens púrpuras de dor

terem dormido uma vez entrelaçadas.

Por silvos, por princípios de noites.

Se é o sal da pele servo de uma sede,

Ou se é a sede a amante lunática deste sal,

Se é pelo sal que se enlouquece.



Leio o cântico dos cânticos sempre muito assustada.

O existir intumescido, tão excessivo e concentrado

— é um estado perigoso.

Poderia inaugurar o inimaginável, um universo outro.

E, no entanto, precisa declinar,

pois de que outra forma poderíamos

vazar-nos de nós em plena vida

e ainda seguirmos vivos?

Nossos ossos são fracos demais.




 

Bárbara Nacif estuda literatura grega. Começou a escrever aos 7 anos. Pássaro debaixo d´água. Impossível pássaro nadador.


Ilustração: Isabela Righi