A fábrica

Por Douglas Ferreira





A fábrica, num inesperado giro para dentro, olhou a si mesma, constatou o próprio abandono, teias de tempo, ar que não circula, morcegos. Como morcegos poderiam ter entrado mesmo com todos os alarmes e sensores de movimento ligados? Caminha até a sala de segurança, onde se controlam alarmes desligados, constata: alarmes desligados – supõe-se que há tempos pela quantidade de morcegos. Corre, tropeçando em suas próprias pernas, até o mais próximo relógio parado, certifica-se: relógio parado – poeira cobre o vidro, talvez algum tempo. Como um corpo que produza sonda enfiando goela abaixo sonda em si mesmo, a fábrica percorre seus corredores não iluminados, sujos, conclui: falta iluminação e limpeza. Lança desesperada um grito e não escuta o eco de volta. Derrama-se sobre suas máquinas paradas, garante: sem funcionamento. Alcança a fachada mofada, sem pintura recente: fungos crus, sem qualquer demão de tinta. Olha ao redor, não há nada além de fábrica abandonada. Olha a si mesma de fora, reduzida a umbigo. Quão assustada por olhar-se, fábrica. Num inesperado giro para dentro, penetrou-se: corpo virgem habitado.


Corre até a sala de máquinas, solta um grito de saudade. Saudade de dedos viajando pelas teclas, líquidos pelas tubulações. Papéis engolidos pela máquina, sente falta da trituração. Olhos cerrados, em seguida abertos por despertador. Gente curada por trabalho, saudade da máquina de admissão. Ao redor tudo está quieto. A fábrica inala fumaça que não sabe de onde vem.


Quatro pessoas a habitavam. 2143, dentre elas, era quem trabalhava. De origem pobre, falava pouco, mas sua ascensão lhe trouxe reconhecimento entre seus pares. Quando encontrava os outros pelos corredores, todos batiam em suas costas, cumprimentavam de longe, gritavam seu nome, mas 2143 acumulava um silêncio seu. Quando saía, voltava carregando presentes, distribuía-os a quem via. Dormia cedo. Pouco se comunicava com os outros três habitantes da fábrica.


4242 dependia de 2143, mas não compartilhava o mesmo silêncio. Toda palavra sua redundava em choro, todo engasgo em reclamação. Um dia cismou que tinha virado uma vesícula cheia de pedras. O médico examinou, examinou e não encontrou nenhuma. 4242 tinha um andar arrastado, quando lhe perguntavam, respondia: estão pesadas. Ouviu falar sobre a vida em outros lugares, por vezes passava horas olhando a porta. Não se movia. Não havia janela no cômodo em que dormia. Dos presentes que ganhara, o melhor tinha sido uma corda.


2142 guardava uma caixa. Por isso seu nome passava de boca em boca na fábrica. Uma caixa guardada embaixo da cama, em cima do guarda-roupa, dentro da mala, uma caixa. Quando 2142 sumiu, arrombaram seu quarto, mas não encontraram nada. Quando voltou, ignorou a fechadura quebrada. Empurrou a cômoda para conter a porta, trancou-se. Ficou lá dentro por dois dias, nunca mais sumiu de novo. Uma caixa na terceira gaveta, em cima de sua cabeça, no bolso.


4342 tinha conseguido fugir, mas voltava de tempos em tempos. Sentava-se, tomava café, contava em poucos minutos as grandes novidades. Após caminhar sozinho pelos corredores, fechava-se numa das salas depois do expediente, arrastava o grande armário, atrás do qual havia um túnel. Entrava, sacava uma colher, continuava cavando. Fazia isso todas as noites até o dia em que ia embora. Quando chegava a hora, 2143 lhe presenteava, 4242 chorava, 2142 apenas observava a partida de longe. 4342 cruzava o pátio com os punhos cerrados.


A fábrica descobre: há numa sala em branco um buraco negro. Enorme, em constante giro, engole tudo a sua volta. Ela não entende por que o buraco não se expande, engolindo o resto de si mesma. Sem mais perguntas, fecha a porta.


A característica determinava a entrada na fábrica. Todas as pessoas donas de outras características não entravam, formavam uma multidão na porta à espera do chamado. Colavam fotos 3x4 na entrada do prédio, faziam faixas, gritavam o nome da fábrica. Tentariam uma rebelião, mas mudaram de ideia. No lugar, fizeram uma ode.


No período de decadência, a fábrica mantinha dois seguranças para guardar seus espaços vazios. Eles não pareciam constatar o óbvio, a fim de fugir enquanto ainda tinham tempo. Um dia, enfim, o vazio engoliu também a eles, os seguranças agora estão incrustados na parede. No período de apogeu, a fábrica brincou sozinha.


Volta seus ouvidos para dentro. Ouve passos em suas escadas de metal, ecos propagando-se pelo ar comprimido, gemidos pelos cantos, palavras de ordem repetidas na sala de máquinas, apitos, alavancas, saídas de ar, gritos de fuja, tudo desmorona. Ouve em retrospecto, memória tardia. A fábrica se pergunta se há memória do presente, ou se foi tudo perdido. Questiona se este que vê é um futuro justo. Tudo desmorona. A fábrica pensa em suicídio.


Lembra-se: o buraco negro havia se formado em época de pico. Um ponto flutuante em uma das salas, que sugava tudo o que sobrava. Julgou ser uma lixeira eficaz, melhor do que queima. Mas o buraco consumia tudo, fábrica reversa. Quem se aproximava ora ouvia gritos de dor vindos do fundo, ora aplausos. Os funcionários, antes sugados contra sua vontade, agora pulavam lá dentro. O buraco crescia.


Tentou se comunicar com outras fábricas, pedir socorro, mas cada qual cuidava do seu próprio buraco. A fábrica aumentou os salários, sorteou brindes, espalhou pelas paredes as fotos dos melhores funcionários. Reformou-se, gastou com tinta, haveria uma grande festa com doces, balões, novos contratos. Treinaria alguns funcionários para serem os mágicos, haveria na programação horário de música, horário de teatro. No chão dos corredores, confetes, no rosto das faxineiras, purpurina. Uniformes novos, sim, uniformes novos, mais coloridos. Olha, quem vencer sua meta primeiro ganhará um dia. Mas os funcionários continuavam pulando lá dentro. Gritos de dor, aplausos. Curiosa, espiava pela fresta: o que havia?


Dona de todas as fábricas, a criança padecia doente, vomitava. Deitada na cama, chamou o mordomo, que não veio. Bateu a campainha, e nada. Chamou mais alto, quebrou o abajur no chão, não tinha mais ninguém em casa. Levantou-se, tonta, fraca das pernas. Cambaleou até a janela, abriu as cortinas. O céu estava claro.


Vagando sozinha em seus corredores, a fábrica tinha enlouquecido. Queria também se juntar aos outros, não ouvia mais o eco, sua última companhia. Decidida, correu até a sala branca, pulou dentro do buraco negro. Antes de entrar foi repelida, caiu no chão, bateu a cabeça. Desmaiou. Dormiu por tempo indeterminado. Ao acordar, num giro inesperado, olhou-se.




Douglas Ferreira, 1993, nasceu em Pirapora (MG) e atualmente reside em Belo Horizonte. Possui formação em Letras pela UFMG e atua como professor. Em 2019, participou do livro Canção de amor para João Gilberto Noll (Relicário Edições), escrito e organizado por Luis Alberto Brandão.



Ilustração: Cindy Meira